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Como o Estilo de Vida Afeta o Glaucoma?
George L. Spaeth
Revisão Técnica: Dr. João França
Lopes
Quando uma pessoa tem glaucoma, seus olhos estão predispostos
a mais danos. Qualquer coisa que impeça os olhos de não
receberem os nutrientes que necessitam vai aumentar o dano. Por
isso, uma má nutrição marcante, como deficiência
de tiamina, comum em algumas partes do mundo, danifica tecidos
como o do nervo óptico. Outras formas de má nutrição
(deficiência de proteína, deficiências de outras
vitaminas etc.) também podem ser prejudiciais.
Obesidade
No outro extremo, a obesidade também pode predispor a
danos e é na verdade uma razão importante de piora
em algumas pessoas com glaucoma. As pessoas obesas podem piorar
porque algumas pessoas com um sobrepeso importante podem ter um
mecanismo biológico que as faz lidar inadequadamente com
os alimentos, e esse mecanismo biológico anormal pode afetar
os tecidos do olho, assim como aqueles de outras partes do corpo.
As pessoas obesas também têm dificuldade para respirar,
o que pode impedir o nervo óptico de conseguir oxigênio
suficiente para ser totalmente nutrido. Além disso, as
pessoas obesas tendem a ter a pressão sangüínea
elevada, o que predispõe à anormalidade dos pequenos
vasos sangüíneos que nutrem o nervo óptico.
Podem também estar envolvidos mecanismos psicológicos,
de tal modo que a pessoa com um sobrepeso importante pode não
conseguir fazer as coisas que são necessárias para
preservar sua saúde de outras maneiras.
Dieta
Entre os extremos da má nutrição severa
e da obesidade, relativamente pouco se sabe sobre o relacionamento
entre a dieta e o desenvolvimento do glaucoma. Mas parece seguro
concluir que é prudente seguir uma dieta não deficiente
em alguma das exigências essenciais nem excessiva a ponto
de causar obesidade. Alguns autores têm sugerido que alimentos
como cenoura e pimentão podem ser benéficos. Outros
têm elogiado o valor da vitamina C, do extrato de mirtilo
e do gingko biloba.
Muitos anos atrás, pesquisei um possível efeito
benéfico da vitamina C e da vitamina B no curso do glaucoma,
mas não consegui encontrar nenhum. Pode ter sido porque
as doses não foram adequadas ou porque o estudo não
durou tempo suficiente, mas não houve nenhum efeito benéfico
aparente. Como atualmente se sabe mais sobre os vários
tipos de glaucomas é importante estudar em detalhes se
alguns destes agentes podem de fato ser benéficos ou talvez
até perniciosos em pacientes com glaucoma. Pesquisadores
da Glaucoma Service Foundation já estão planejando
esses estudos.
Exercício
Muitos anos atrás, um estudo realizado na Universidade
de Washington, em St. Louis, demonstrou que pessoas com o tipo
de glaucoma em que o nervo óptico torna-se danificado mesmo
com a pressão intraocular baixa têm uma probabilidade
maior de sofrer um dano progressivo se forem sedentárias
do que se praticarem exercícios. Os pesquisadores descobriram
que o exercício vigoroso e repetido durante um período
de tempo prolongado pode baixar a pressão intraocular em
torno de 4 mm Hg. Para uma pessoa cuja pressão intraocular
é cerca de 25 mm Hg, e na qual uma pressão neste
nível é suficientemente alta para produzir dano,
uma redução de 4 mm Hg na pressão intraocular
pode ser suficiente para evitar outros danos.
É de admirar porque se tem dado tão pouca atenção
a esta informação. Tanta coisa tem sido escrita
sobre a importância do “exercício” que
isso já se tornou moda. Na verdade, não está
totalmente claro que o exercício seja tão benéfico
quanto alguns autores nos levam a acreditar. Pode ser que a razão
de as pessoas que se exercitam parecerem mais saudáveis
e viverem mais é, antes de tudo, porque são mais
saudáveis e, por isso, se exercitam. O exercício
é também importante para o olho porque ajuda a evitar
o ganho de peso e manter a pressão sangüínea
normal. Uma pressão sangüínea elevada por tempo
prolongado pode danificar os pequenos vasos sangüíneos
que nutrem o nervo óptico, reduzindo a capacidade do nervo
para resistir aos efeitos prejudiciais da pressão intraocular.
Por outro lado, o fluxo sangüíneo insuficiente nos
vasos maiores que vão do coração para a cabeça,
as artérias carótidas, pode causar uma redução
generalizada no fluxo sangüíneo para o olho, privando
o nervo óptico dos nutrientes que ele precisa para ser
saudável.
Estas várias e muito diferentes anormalidades do fluxo
sangüíneo, da regulação do fluxo sangüíneo,
e de como elas afetam o olho saudável ou doente estão
se tornando melhor entendidas e são evidentemente importantes
no desenvolvimento do glaucoma. O estilo de vida de uma pessoa
afeta significativamente o sistema cardiovascular da pessoa. Por
isso, pode ter não apenas um efeito direto sobre a pressão
ocular, o exercício e a dieta, mas pode ter efeitos indiretos
que se relacionam à manutenção de um sistema
cardiovascular saudável. Por exemplo, se um indivíduo
fosse participar de uma corrida em uma estrada de alta altitude
e não estivesse adequadamente aclimatado, é razoável
supor que o sangue fosse desviado dos olhos para o coração
e os músculos, e a pessoa pudesse ter uma insuficiência
de fluxo sangüíneo para o olho durante a corrida,
resultando em dano ao olho.
Também quando a pressão sangüínea cai
rapidamente, como, por exemplo, devido a uma hemorragia severa
durante o parto ou em conseqüência de ferimento, o
fluxo sangüíneo para o olho pode diminuir de repente,
causando um dano sério e irreversível ao nervo óptico.
Outras situações que podem resultar em uma instabilidade
da pressão sangüínea incluem mudanças
de posição ou ingestão de drogas que afetem
a pressão sangüínea.
Administrando Nossas Vidas
Outro aspecto do estilo de vida que se relaciona ao fato de o
glaucoma de uma pessoa piorar ou não é a capacidade
da pessoa para administrar sua própria vida em termos mais
amplos. O indivíduo sabe como escutar seu próprio
corpo? Trata-se de uma pessoa que nega ou não presta atenção
ao fato de estar perdendo parte do seu campo visual? A pessoa
sabe como se comunicar com seu médico, conseguindo articular
claramente os problemas e preocupações que a afligem?
O paciente sabe como usar bem o médico, certificando-se
de que as perguntas sejam respondidas por inteiro e que todas
as preocupações sejam adequadamente tratadas? A
pessoa é suficientemente disciplinada para manter as consultas
em dia e usar as medicações de acordo com o indicado?
A pessoa sabe o que precisa saber para ter a melhor chance de
manter a saúde?
Saúde Geral
Há 50 anos, Duke-Elder descreveu o glaucoma como “um
olho doente em um corpo doente.” Ainda que esta seja uma
supersimplificação, há muita verdade em seu
comentário. Embora alguns tipos de glaucoma pareçam
não ter nada a ver com a doença generalizada, com
relação a muitos tipos de glaucoma, a saúde
geral da pessoa desempenha definitivamente um papel importante
na piora ou não do glaucoma. A saúde geral de uma
pessoa é o resultado de uma interação complexa
entre a estrutura genética básica da pessoa e o
mundo ao qual essa estrutura genética é exposta:
os alimentos, as toxinas e todos aqueles outros aspectos da maneira
em que vivemos que afetam a maneira em que nossos genes são
expressados.
Perigos da Generalização
Um dos erros mais graves com respeito ao glaucoma tem sido supersimplificar
a condição. É um erro sério considerar
um mecanismo do dano do glaucoma aplicável a todo mundo.
Também é um erro sério generalizar quanto
a aspectos específicos do estilo de vida ou da terapia.
Por exemplo, embora o exercício possa ser benéfico
a muitos indivíduos, exercícios muito vigorosos
que resultem em uma redução no fluxo sangüíneo
para o nervo óptico podem piorar o glaucoma do paciente.
Algumas drogas podem melhorar o glaucoma de uma pessoa e piorar
o glaucoma de outra pessoa.
Cabe a cada um a responsabilidade de definir para si próprio
que estilo de vida mais contribui para o seu complemento de genes
exclusivo ser mais plenamente expressado e menos provável
de ser danificado. Os pacientes perguntam com freqüência
se devem parar de tomar café ou parar de beber grandes
quantidades de água. A resposta adequada quase certamente
será que não há uma resposta isolada, com
exceção de se evitar excessos óbvios. Essas
coisas que predispõem para a saúde do corpo provavelmente
predispõem também para a saúde do olho.
Para alguns, isso pode significar evitar totalmente coisas como
café, vinho ou queijo cheddar. Mas para a maioria, significa
desenvolver uma vida em que se aprende a escutar seu próprio
corpo e seu próprio espírito, e apreciar coisas
que sejam nutritivas e evitar aquelas que não provoquem
uma sensação de bem-estar. Certamente, entre os
fatores mais importantes que afetam a nossa saúde está
a maneira como pensamos, sentimos, amamos e vivemos.
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