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Neuroproteção: Ajuda para o Paciente de Glaucoma?
Revisão Técnica: Dr. João F. Lopes, MD
As pessoas com glaucoma nem sempre mantêm sua visão.
Em alguns casos, isto acontece porque o glaucoma está bem
avançado antes de ser detectado. Outras pessoas não
se cuidam adequadamente e, conseqüentemente, seu glaucoma
piora. Outras ainda não são cuidadas apropriadamente
por seus médicos e seu glaucoma piora. Mas às vezes
cerca de um terço daqueles com o tipo mais comum de glaucoma,
o glaucoma idiopático de ângulo aberto, piora mesmo
que estejam sob os cuidados de médios experientes e se
cuidem bem. Como isso acontece?
Por Que, Apesar de Tudo Alguns Pacientes de Glaucoma
Pioram?
Uma razão de os pacientes de glaucoma piorarem é
porque, na verdade, eles não têm glaucoma. Nem sempre
os diagnósticos podem ser feitos com 100 por cento de acurácia,
e às vezes uma condição pode parecer glaucoma,
mas não ser glaucoma.
Às vezes uma pessoa pode ter glaucoma e desenvolver outra
condição que cause um dano parecido com o do glaucoma,
e não é considerado porque o médico e o paciente
estão atentos ao glaucoma que ambos sabem que o paciente
tem. Como ainda não é possível determinar
exatamente qual é o nível correto da pressão
intraocular que vai prevenir dano adicional em um determinado
paciente, o tratamento é por vezes muito intenso, podendo
ele próprio causar problemas. Ás vezes o tratamento
não é suficientemente intenso e o glaucoma piora,
até ser notado que ele está piorando e é
então iniciado um tratamento mais intenso.
Podem existir também alguns tipos de glaucoma em que o
nervo óptico torna-se tão danificado que o dano
continua, mesmo quando a pressão intraocular está
bastante baixa, em até 8 mm Hg.
Não Há Alguma Maneira Mais Eficaz de se Impedir
que os Pacientes de Glaucoma Piorem?
Por todas estas razões e certamente também por
outras alguns pacientes com glaucoma pioram. Isto é desencorajador
para todos. Conseqüentemente, outros métodos além
de apenas baixar a pressão intraocular vêm sendo
estudados para ver se é possível prevenir que as
pessoas com glaucoma piorem.
Neuroproteção
Como a razão usual de as pessoas com glaucoma perderem
a visão é devido ao dano às células
do nervo (as células ganglionares) que enviam os impulsos
elétricos da retina de volta ao cérebro, faria sentido
tentar proteger estas células de ficarem danificadas. É
o que se tenta fazer baixando a pressão intraocular. Mas
talvez haja outras maneiras de proteger a célula. Esta
idéia de proteger as células do nervo, a neuroproteção,
é antiga e foi tentada no passado por médicos como
Bernard Becker, da Washington University, em St. Louis. Recentemente,
a idéia veio outra vez à tona, pelo menos em parte,
como conseqüência de muitas novas descobertas nos campos
da genética, da neurobiologia e da farmacologia.
Mas antes de ir adiante, o leitor deve saber que, até
agora, não há prova de que haja outra maneira de
proteger os nervos de pacientes com glaucoma além de baixar
a pressão intraocular. Até o momento, todas as outras
abordagens são algo que pode ser feito além de baixar
a pressão intraocular até o nível adequado,
não para substituir este procedimento.
Por Que As Células do Nervo Morrem?
As células são fábricas. Elas precisam de
combustível, produzem resíduos, necessitam de instrumentos
para utilizar o combustível e descartar os resíduos,
e precisam ter integridade estrutural para poder sobreviver. As
células ganglionares da retina precisam de açúcar
e de oxigênio, mas também precisam de fatores de
crescimento do nervo para sustentá-las. Podem ser mortas
por seus próprios produtos residuais, como os ácidos
que resultam da queima dos açúcares e das gorduras,
e as amônias que resultam do uso de proteína.
Uma toxina de interesse especial no glaucoma é o glutamato,
uma substância que é essencial para o funcionamento
da célula, mas em excesso pode causar a morte da célula.
A parede da célula deve estar intacta, mas deve funcionar
deixando as coisas que ela quer e rejeitando as que ela não
quer. O cálcio é necessário para o coração
bater adequadamente, para os ossos se desenvolverem, mas quando
a membrana da célula se rompe e permite que o cálcio
externo entre, a célula rapidamente morre. Algumas substâncias
excitam a célula e, quando presentes em excesso, podem
literalmente excitá-las até causar sua morte. Muitos
genes diferentes controlam a ocorrência normal ou anormal
destes processos, e como são alterados e modificados dependendo
do ambiente em que as células se encontram.
Usando Drogas para Bloquear os Mecanismos que Causam a Morte
das Células do Nervo
O bloqueio destes mecanismos provoca a morte da célula
ou pode aumentar a vida da célula. Por exemplo, alguns
agentes usados para tratar pressão sangüínea
elevada, como “Procardia” (nifedipina) ou nimodipina,
estabilizam a membrana da célula e evitam que o excesso
de cálcio entre na célula. Estes “bloqueadores
do canal de cálcio” têm sido extensivamente
estudados no campo do glaucoma. Kitazawa, no Japão, está
convencido de que eles podem ajudar a prevenir danos em alguns
pacientes com glaucoma, especialmente aqueles em que o dano ocorre
com pressões baixas. Outros, incluindo nós do Wills
Eye Hospital, não têm tanta certeza de que esta seja
uma abordagem criteriosa. Os bloqueadores de canal de cálcio
têm muitos efeitos colaterais, incluindo pressão
arterial baixa, que pode resultar em menos fluxo de sangue para
o olho, o que piora o glaucoma. Além disso, ainda não
conseguimos confirmar um efeito benéfico.
A proteção dos nervos seria benéfica em
muitas condições além do glaucoma. No entanto,
em geral tem sido demonstrado pouco benefício também
nestas outras áreas. A doença de Lou Gehrig (esclerose
lateral amiotrófica) é uma condição
rara em que há uma perda gradual da função
dos nervos que movem os músculos; alguns indivíduos
com a doença de Lou Gehrig têm sido ajudados com
um agente neuroprotetor. No entanto, em outras condições
afora esta a neuroproteção é mais uma promessa
do que uma realidade.
É bem interessante o fato de duas drogas já usadas
no tratamento de pacientes com glaucoma demonstrarem um efeito
de neuroproteção. Isto não quer dizer que
eles tenham exibido um benefício neuroprotetor no glaucoma,
mas, em alguns casos, o betaxolol (Beptoptic) e a brimonidina
(Alphagan) têm mostrado limitar o dano aos neurônios.
Além disso, três estudos sugeriram que os pacientes
com glaucoma que são tratados com betaxolol têm uma
maior preservação do seu campo visual do que seria
esperado tendo-se como base apenas a redução da
pressão intraocular. Estes estudos, no entanto, são
preliminares e não conclusivos.
A Neuroproteção Proporcionada por um Estilo
de Vida Saudável
Há várias outras abordagens a todo o campo da neuroproteção,
algumas delas sugeridas em nossa discussão anterior do
relacionamento entre estilo de vida e glaucoma. É prudente
viver de uma maneira que mantenha nas melhores condições
possíveis a saúde geral. Certamente, a boa saúde
geral é um neuroprotetor.
Por exemplo, o álcool é extremamente tóxico
para as células vivas. Por isso o álcool é
usado como um agente anti-séptico para matar bactérias.
A sensibilidade à toxicidade do álcool varia de
pessoa para pessoa. Em muitos indivíduos, pequenas quantidades
de álcool parecem ser toleradas sem nenhum efeito biológico
prejudicial. Mas, para algumas pessoas, especialmente aquelas
de descendência asiática, até mesmo quantidades
mínimas de álcool são prejudiciais; para
todos, grandes quantidades de álcool são devastadoras
para o bem-estar do corpo.
Também a má nutrição marcante, especialmente
a falta de vitaminas B, causa doença neurológica
grave. Isso não significa que tomar grandes quantidades
de alguns nutrientes, como “megadoses” ou vitamina
B, seja uma atitude saudável. Na verdade, quantidades excessivas
de quase todos os nutrientes causam doenças, inclusive
grandes quantidades de algumas das vitaminas B.
Mensagem Para Levar Pra Casa
Há muito interesse no campo da medicina e no campo do
glaucoma em encontrar maneiras de proteger os nervos de serem
danificados.
A única maneira comprovada de evitar a progressão
do dano causado pelo glaucoma é baixar a pressão
intraocular em uma quantidade adequada no indivíduo com
glaucoma.
Evitar agentes tóxicos conhecidos e cuidar do próprio
corpo e do próprio espírito é bom para o
coração e para a alma, e provavelmente ajuda também
o glaucoma.
Toda droga e todo tratamento tem efeitos colaterais, alguns dos
quais são sérios ou mesmo fatais, e isto inclui
também os “agentes neuroprotetores”.
Por isso, qualquer tratamento deve ser abordado com uma consideração
cuidadosa dos riscos e benefícios conhecidos e potenciais.
A neuroproteção pode ser uma parte importante do
tratamento de glaucoma no futuro. No presente, contudo, os tratamentos
supostamente “neuroprotetores” são em sua maioria
“espelhos”, refletindo a esperança do investigador
ou o desespero do paciente, e devem ser usados com pleno reconhecimento
de que ainda estão sob investigação e apresentam
problemas.
Em contraste, estar em boas condições físicas,
emocionais e espirituais tem maior probabilidade de ser especificamente
benéfico para os nervos e, é claro, não tem
nenhum efeito colateral negativo.
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